Fundação Gaia promove hoje: “Crise Hídrica e Abordagem Ecossistêmica”

Captura de Tela 2015-09-08 às 07.35.45Frequentemente a grande mídia e os governos encaram os problemas ambientais de forma fragmentada, com simplificações inadequadas, desconsiderando os dados mais relevantes quanto às suas causas. Como “Água” é a temática norteadora das palestras do Ecologia na Cultura em 2015, Paulo Brack, professor da UFRGS e presidente do INGÁ, ressaltará a importância da abordagem ecossistêmica para entender e vislumbrar soluções para a crise hídrica. A palestra acontece no dia 08 de setembro, terça-feira, às 20h na Livraria Cultura em Porto Alegre, com entrada franca.

A atividade mensal é promovida pela Fundação Gaia – Legado Lutzenberger em parceria com a Livraria Cultura. Os encontros realizam-se geralmente na segunda terça-feira de cada mês (consulte a agenda previamente), com entrada franca. Interessados podem obter certificado de participação nas palestras, tanto para cada evento como para todas nas quais participarem. Para isso basta escrever para reservas@fgaia.org.br e solicitar maiores informações.

Resumo

“A crise hídrica, considerando-se a quantidade, a qualidade e as condições bióticas dos ecossistemas hídricos, é talvez o problema ambiental mais grave da atualidade” afirma Brack, ressaltando que  Antônio Nobre, cientista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, INPE, alertou há mais de seis anos para o que poderia acontecer, ou seja, um possível colapso de abastecimento de água, na região da Grande São Paulo, se nada fosse feito para conter os desmatamentos tanto na Amazônia como no próprio Estado de São Paulo. O cientista divulgou a importância do tema dos Rio Voadores, constituído por grandes massas de nuvens com conteúdo de água superior a água dos rios da bacia amazônica, associadas ao ciclo da água desde as chuvas nas florestas do norte até os corredores de umidades que alimentam chuvas nas regiões sul e sudeste do Brasil.

Segundo Brack, nada foi feito também desde o relatório do IPCC, de 2007, que já apontava a possibilidade de transformação da Floresta Amazônica em cerrados e em vegetação mais seca, com perdas progressivas por estlagens inclusive na Mata Atlântica e também na transformação de amplas área da Caatinga em desertos.

Em 2007, o Brasil comemorava o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) e o tal “Risco País” teria diminuído(ver Capítulo: Os Comandante da Nau Terra enlouqueceram? E nós, para onde vamos?), mas negavam a crise climática e o futuro incerto no Brasil. Em 2012, o negacionismo da crise ambiental no Brasil, ligado a um movimento parlamentar inédito de setor do agronegócio, que provocou uma dos maiores retrocessos na legislação ambiental, a substituição da Lei 4.771/1965, o então Código Florestal, pela Lei 12.651, que anistiou desmatadores e flexibilizou a proteção da vegetação nativa.

“Estamos, na realidade, entrando em uma fase de crise sistêmica, em progressivo agravamento. No Brasil, a falta de água inédita na região Sudeste e Nordeste integrada a outras situações de eventos climáticos extremos, e perda de biodiversidade, representam indícios cada vez mais consolidados de que as mudanças climáticas, refletidas em maior frequência de eventos extremos, vieram para ficar” afirma Brack.  Um dos mais renomados cientistas do clima, Carlos Nobre, que hoje preside atualmente a CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento do Ensino Superior), alertava em uma aula magna na UFRGS há poucos anos, que estes fenômenos  – secas devastadoras, chuvas torrenciais, tornados e furacões – seriam cada vez mais intensos e comuns, e o ciclo das mudanças climáticas duraria décadas ou até séculos, mesmo que se cessem as causas atuais de origem antrópica, elevação dos gases de efeito estufa.

Para o professor,  juntamente às crises hídrica e climática, simultaneamente, “estamos sendo testemunhos também da Sexta Extinção em Massa da Biodiversidade, fenômeno já reportado em inúmeros trabalhos científicos. No Brasil, sofremos também com aumento de desmatamentos na Amazônia, e perda ou conversão crescente da cobertura natural de todos os biomas para monoculturas e outras atividades, como grandes hidrelétricas e outras obras, com crescimento de uso de recursos naturais e também expansão ilimitada de regiões urbanas, uso crescente de produtos químicos sintéticos, no bojo da ultra transformação da natureza, que gera lucros tanto na destruição dos processos sistêmicos da vida como no caso da tentativa de “remediar” suas consequências. Estaremos entrando em uma fase de colapsos e pré-colapsos, numa guerra incessante e silenciosa contra a natureza, ilustrada pela ecofeminista espanhola Yayo Herrero, e neste caso as consequências são trágicas para os seres humanos mais vulneráveis do mundo, representados aqui no Brasil pelos povos indígenas e comunidades tradicionais e camadas sociais despossuídas que vivem em áreas de risco, por exemplo.” Segue em voga como “solução” para a crise econômico-financeira, que eclipsa as demais, o paradigma do crescimento econômico ilimitado, em molde dos BRICS ou no molde da economia hegemônica neoliberal que nega as causas da crise hídrica provocada pelo desmatamento e mudanças climáticas, e aproveita as crises para gerar mais negócios. Brack supõe que a Conferência do Clima em 2015, em París, será mais uma vitrine do faz de conta como foi a Rio + 20, realizada 20 anos após a Conferência de Meio Ambiente que ocorreu no Rio de Janeiro, em 1992.

“Somente teremos saída a partir de avaliações profundas deste processo em nível mundial, das consequências decorrente deste modelo de esgotamento da economia hegemônica atual. E a saída também passa por uma reflexão sobre o esgotamento do modelo, que apontem para outros paradigmas, que não o do produtivismo, da acumulação e da competitividade, que destroem a água, o ar, o solo, a biodiversidade e as relações ecológicas harmônicas entre os seres humanos entre si e com a natureza. O tempo é cada vez mais curto, mas ainda temos o compromisso ético  na busca de uma reconexão com nossos sistemas ecológicos, desapegados da lógica do crescimento e da escravidão financeira atual, como nos ensina o professor de Ciência Política da Universidad Autónoma de Madrid, Carlos Taibo” enfatiza o professor.   O cientista social espanhol traz elementos simples para uma vida coletivamente autônoma, libertária, com características locais, na procura do bem viver, mas enfrentando e superando o sistema capitalista e seu modelo de esgotamento que está na raiz dos problemas atuais sistêmicos.

Palestrante

Paulo Brack é Biólogo e Mestre em Botânica pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e Doutor em Ecologia e Recursos Naturais pela Universidade Federal de São Carlos. Foi técnico da Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Porto Alegre e professor da UNIJUI, UNESC e PUCRS até 1994. Desde 1994, é professor do Departamento de Botânica do Instituto de Biociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Participou da organização de eventos Seminário SOS Biodiversidade: Flora de Porto Alegre, I, II e IIII Fórum sobre impacto das hidrelétricas no RS. Trabalha em projetos de pesquisa sobre o estado de conservação de espécies ameaçadas no RS e também do papel estratégico da flora. Atua em projetos de Extensão da UFRGS e em espaços de representação e construção de políticas públicas sobre biodiversidade e meio ambiente. Foi membro do Conama e Consema e atualmente é suplente no Conselho Municipal do Meio Ambiente, pelo Ingá – Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais, ONG na qual faz parte da sua coordenação.

Serviço

Palestra: “Crise hídrica e abordagem ecossistêmica”

Palestrante: Paulo Brack

Data: 08 de setembro de 2015, terça-feira

Horário: 20h

Local: Auditório da Livraria Cultura no Bourbon Shopping Country – Rua Túlio de Rose, 80, em Porto Alegre.

Texto e informações: jornalista Cláudia Dreier (51) 9819 9887

Programação completa das palestras em www.fgaia.org.br

Fotos: Cláudia Dreier e Arquivo Fundação Gaia. Edição de imagens e textos: Cláudia Dreier comunicacao@fgaia.org.br

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