AGAPAN divulga manifesto em defesa das árvores de Porto Alegre

Em seu site, na sexta-feira, a AGAPAN – Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural, associada da APEDeMA-RS, defende as árvores de Porto Alegre contra o atual ‘arboricídio’, na cidade que um dia se orgulhou de ser uma das mais verdes do país. E  solicita que as 1500 árvores da Avenida Tronco, as oito árvores da Praça Júlio Mesquita, as 198 árvores da Anita Garibaldi, as 200 da Cristóvão Colombo e as 200 da Plinio Brasil Milano sejam preservadas em seus locais atuais. Nenhuma árvore a menos!, exige o Manifesto.  Segue o texto:

Tipuana derrubada na Usina do Gasômetro. (Foto: Facebook)
Estamos presenciando um verdadeiro “arboricídio” em Porto Alegre. A cidade que um dia se orgulhou de ser uma das mais verdes do país sofre, a cada ano, com a remoção de milhares de árvores. Os dados mais recentes divulgados pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Smam), referente a 2012, registra a derrubada de 4.061 árvores naquele ano, número que, segundo a Smam, deve se repetir na contabilidade de 2013.

São dados que a Agapan, entidade de defesa do ambiente natural com mais de quatro décadas de atuação, lamenta profundamente.

Obra na avenida Plínio Brasil Milano sem travessia de pedestres
e sem ciclovia no projeto. (Fotografia: PMPA)

O argumento de defesa utilizado pela Smam, de que no lugar das árvores suprimidas, muitas outras foram plantadas (em 2012, teriam sido 26 mil mudas, todas no Parque Saint Hilaire) não é convincente: há indicativos de que boa parte dessas plantas morrem muito antes de se tornarem adultas, o que, de qualquer maneira, só ocorre após 20 ou 30 anos de cultivo adequado. Além disso, essas mudas estão distantes das áreas das árvores suprimidas. Ou seja, a sombra e a umidade, que tanto nos fazem falta em dias cálidos, ou a penetração das raízes no solo, que permite evitar ou reduzir os efeitos locais de chuvas intensas – os alagamentos, por exemplo –, só alcançarão níveis semelhantes aos daqueles exemplares que nos foram sonegados pelo poder público dentro de algumas décadas. Isso, claro, se novas demandas de obras não a cortarem no futuro para viabilizarem novas obras.

Nos próximos meses, em consequência das reformas, que recebem a falsa alcunha de “obras de mobilidade urbana”, 1500 árvores da Vila Tronco e mais centenas de vegetais de outros pontos da cidade serão suprimidos, de maneira que nós, os habitantes de Porto Alegre, iremos enfrentar de uma única vez um impacto ambiental inédito em nossa cidade.

O “desenvolvimento” proposto pelas administrações públicas é anacrônico e autodestrutivo, porque é direcionado ao constante aumento do uso de veículos poluentes e contra a preservação das árvores, que têm o poder de sequestrar o CO2 da atmosfera e refrescar os ambientes onde estão inseridas, climatizando microclimas e melhorando o ar.

Se essa proposta vingar, vamos trocar o pouco que ainda resta de ambiente natural por vias expressas, pontes estaiadas, viadutos que irão alterar a paisagem. Passaremos a viver em uma cidade árida, poluída, abafada e alagada com uma frequência muito maior àquela a que estamos acostumados.

Pior ainda: segundo estudos divulgados pelos pesquisadores da Universidade Federal de Ciências da Saúde (UFCSPA), o ar de Porto Alegre já é duas vezes mais poluído do que o recomendado pelos padrões internacionais. Em alguns momentos do dia esse índice é ainda mais preocupante.

Quanto mais árvores suprimirmos, mais ficaremos expostos a doenças que a Organização Mundial de Saúde (OMS) associa à contaminação do ar: câncer de pulmão e de bexiga e distúrbios cardiorrespiratórios. A OMS também alerta que a redução do ar puro no ambiente urbano pode provocar nascimentos prematuros.

O caminho sugerido pelo Executivo municipal é suicida, sem volta. Por isso, não podemos concordar com o andamento das obras públicas de Porto Alegre, que destroem o que é importante para erguer concreto e asfalto.

Nesse modelo escolhido pelos administradores, nem arrancando todas as árvores de Porto Alegre resolveremos o problema da falta de pistas de rolamento, visto que o número de automóveis cresce dia a dia, tanto pelo incentivo do governo federal, que reduz impostos sobre esses produtos, quanto pelo aumento do poder aquisitivo de parte da população. A frota de veículos do RS ultrapassou a marca de cinco milhões de veículos em circulação no ano de 2011, segundo dados dos Detran RS. Nesse ano (2014), devemos ter mais de seis milhões. Nesse ritmo, a média de crescimento da frota fica em um milhão de veículos a cada três anos.

Também anda na contramão a falta de investimento público e incentivo ao uso do transporte coletivo de boa qualidade em detrimento do individual. Para ampliar o problema, seguimos sem o cumprimento do Plano Diretor Cicloviário, que prevê a instalação de 400 quilômetros de ciclovias e ciclofaixas em Porto Alegre.
Jovem sobe na Tipuana da Usina do Gasômetro em fevereiro de 2013. ( Foto: Facebook)

As manifestações públicas do inverno de 2013 na capital gaúcha registraram a insatisfação da população porto-alegrense, que se mostra crescente a cada novo bosque derrubado para a duplicação de uma via expressa.

Antes disso, em fevereiro de 2013, três jovens subiram em uma Tipuana diante da Usina do Gasômetro para impedir a derrubada das 110 árvores para uma obra de mobilidade da Copa do Mundo 2014. A prefeitura não apenas prendeu os 27 acampados que se mobilizaram pela preservação desse bem natural e comum, como, apesar do engajamento de uma parcela substancial da população através de redes sociais e de audiência pública, jamais aceitou alterar o projeto com as sugestões da cidadania.

Infelizmente, este não é o único exemplo da falta de diálogo e de prestação de contas da atual gestão municipal. Basta consultar o Portal da Transparência da Prefeitura de Porto Alegre para constatar, por exemplo, que ao invés de promover Estudos de Impacto Ambiental para as 14 obras da Copa do Mundo, como prevê a legislação no caso de alterações de grandes proporções no ambiente urbano, foram realizados apenas três Relatórios Ambientais Simplificados (RAS), que, como o nome já diz, são incompletos e geram desconfiança – ainda mais depois de presenciarmos a prisão de secretários de Meio Ambiente de Porto Alegre e do Estado do Rio Grande do Sul na Operação Concutare da Polícia Federal, que investigou a venda de licenças ambientais em obras de grande porte.

Parece-nos, portanto, que nossos gestores optaram pela forma menos democrática de empreender projetos urbanos, sem considerar os apelos dos moradores, técnicos em mobilidade como os arquitetos e nós, os ambientalistas.

Por isso, a Agapan se manifesta contrária à derrubada de árvores que vem ocorrendo em Porto Alegre em função de projetos urbanísticos e obras que não foram devidamente discutidas e solicitadas pela sociedade porto-alegrense.

Refazer tais projetos com vontade de diminuir erros e buscar alternativas sustentáveis é o que a cidadania espera e irá aplaudir. Não é vergonha para um administrador voltar atrás, pelo contrário, seria uma corajosa demonstração de boa vontade e preocupação com o futuro de uma cidade.

Defendemos um modelo de cidade autônoma, harmônica, socialmente justa e ecologicamente sustentável. Acreditamos em um mundo desenvolvido que respeite as nossas riquezas naturais, nosso patrimônio cultural e ambiental. E lutamos por ele.

Solicitamos que as 1.500 árvores da Avenida Tronco, as oito árvores da Praça Júlio Mesquita, as 198 árvores da Anita Garibaldi, as 200 da Cristóvão Colombo e as 200 da Plinio Brasil Milano sejam preservadas em seus locais atuais. Nenhuma árvore a menos!

Porto Alegre, 29 de janeiro de 2014.

Agapan – A Vida Sempre em Primeiro Lugar!

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