CARTA DO CIDADÃO, ATIVISTA E AGRONÔMO CARLOS DAYRELL AO PREFEITO DE PORTO ALEGRE

Carta de Dayrell ao prefeito FortunaTti: está em tempo de rever e repensar soluções.

 

Dayrell subiu na árvore na Av João Pessoa em frente ao Direito da UFRGS  em fevereiro de 1975.
Mais dois jovens subiram também e evitaram que um viaduto cortasse todas as árvores. Estas estão lá até hoje. O projeto foi modificado. Em plena ditadura.
Em 6 de fevereiro de 2013, um estudante subiu nas árvores da praça Julio Mesquita para evitar o corte de 118 árvores. É seguido por mais dois jovens.  (Foto: CCardia)

Dayrell, o jovem estudante e associado da AGAPAN, que evitou a derrubada das árvores na av. João Pessoa em fevereiro de 1975, enviou para Milanez da AGAPAN a cópia de sua carta ao prefeito Fortunatti. 

“Esta discussão de fundo proporcionada pela movimentação em torno da Anita e, em seguida, do Gasômetro, não podia ser deixada para depois. No dia 21 de janeiro, reagindo à uma proposta que saiu na rede social de manifestarmos uma posição falando diretamente com o Fortunatti no seu blog, enviei esta carta (segue anexa). Não tive resposta, mas a movimentação puxada pela juventude e por todos vocês está provocando a resposta que não tínhamos tidos. Parabéns a todos vocês!

De fato, estamos vivendo um período onde não temos mais como deixar para depois as questões que nos afetam diretamente.

Aqui, no sertão norte mineiro, infelizmente estamos vivendo uma nova onda de desmatamento sobre os cerrados, caatingas e matas secas. E agora a mineração avança sobre as altas montanhas, ameaçando a destruir o que nos resta de nossas reservas de água. As comunidades começam a se levantar … e nossa esperança vai crescendo com as noticias que nos chegam do sul!” 


Um grande abraço,

Carlos Dayrell 

Moradores protestam com faixas pretas nas 240 árvores ameaçadas de corte
 para Obra da Copa  na rua Anita Garibaldi. (Nessa/AGAPAN)


 

Carta de Dayrell ao Prefeito de Porto Alegre Fortunatti:

Caro Fortunatti,

Tomo a liberdade de me dirigir a você desta maneira. E desde aqui do Norte de Minas onde venho construindo minha vida, onde cheguei após tantas caminhadas, por muitos lugares. 

De Porto Alegre com certeza o lugar e o período que mais orientou e marcou minha trajetória, além dos tantos amigos e familiares que aí tenho. Um carinho que cresceu muito mais quando após tantos anos aqui, neste sertão, me descobriram e me chamaram de volta. 

Um convite demais honroso – ser agraciado com o título de Cidadão Honorário de Porto Alegre. Honraria que foi construída por muitas mãos de porto-alegrenses ilustres, e entre estas, as suas. Onde falou alto, muito mais do orgulho que tive ao receber esta honraria, foi o de poder compartilhar com a minha mãe, D. Doxinha, aquele momento. Afinal, foi minha mãe que tinha costurado minha saída de Porto Alegre para Viçosa em Minas Gerais, o que aconteceu em julho de 1976. 

Saindo quase no silêncio, foi a orientação que recebi então, a tratamento médico. O que minha mãe tinha feito, e fui saber muito tempo depois, foi movida por um medo imenso ao ver estampada em uma matéria de jornal (Zero Hora, 06.11.75) a fala do então comandante do III Exercito, general Oscar Luiz da Silva. Este, ao apresentar o general Adolpho de Paula Couto, que faria uma palestra para a ADR – Ação Democrática Renovadora – ele abordou como a primeira de um total de treze indagações: “Porque há alguns meses aqui em Porto Alegre, um estudante, em plenas férias, subiu em uma árvore para impedir que ela fosse derrubada pela prefeitura?” Vivíamos quase o ocaso da ditadura, mas as forças repressivas continuavam agindo, “a subversão está contida, mas os subversivos continuam agindo”: em outubro de 1975, assassinato Vladimir Herzog; em janeiro de 1976, Manuel Fiel Filho. Quantos outros não estariam sendo divulgados na imprensa?

Foi neste clima que mudei para Viçosa, em Minas Gerais, quase na calada da noite. Certamente D. Doxinha nunca imaginaria que, vinte e dois anos após, seu filho retornaria a Porto Alegre para receber o título de Cidadão Honorário.

Faço esta breve introdução caro Fortunati, apenas para você ter ideia da gratidão que guardo por todos vocês que foram responsáveis pela decisão de outorga deste título que muito me honra. E é por esta gratidão que guardo com Porto Alegre que tomo a liberdade de escrever esta carta a você. 

Estou aqui a acompanhar de longe a movimentação dos porto-alegrenses que lutam para que as árvores da Anita sejam preservadas. Já vi os que defendem e justificam a obra, já vi os que se posicionam contrário à obra. E me posicionei: as árvores da Anita precisam ser resguardadas. E com as árvores, um novo conceito de cidade precisa ser abarcado por nossos gestores. 

Um conceito de cidade de futuro – que saiba reconhecer e valorizar sua história, suas tradições, seu patrimônio natural e cultural – e ir construindo alternativas para além daquelas geradas pela enorme pressão dos setores industriais imediatamente envolvidos no binômio – automobilismo – petróleo. 

Pressão que além de provocar apetites insaciáveis por mais e mais produtos, por mais e mais espaços, o fazem em cima do descarte, da obsolescência planejada. Nossa sociedade não pode ficar a mercê destes interesses, pois eles não têm fim. 

Cabe aos poderes públicos construir efetivamente os limites. Tenho certeza de que existe uma solução que tanto vai garantir a preservação das árvores da Anita – pelo menos de sua maioria – onde os engenheiros de tráfego e outros especialistas em mobilidade urbana vão encontrar não apenas uma solução imediata – mas, principalmente, uma solução de longo prazo – prezando a historia, a tradição, e acionando soluções inovadoras que acautelem desde já enorme crise ambiental que apenas muito superficialmente antevemos.  É com este espírito que escrevo esta carta. Está em tempo de rever e repensar soluções. Criatividade nosso povo tem de sobra.

Um grande abraço,
Carlos Alberto Dayrell 

Montes Claros / MG – aos 21 de janeiro de 2013.

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