Movimento Ecológico Gaúcho manifesta-se sobre a ampliação de megainvestimento da Celulose Riograndense no RS

Ampliação de megainvestimento da Celulose Riograndense: o “salva-vidas de chumbo 2.0” para o Estado? 

A Assembleia Permanente de Entidades em Defesa do Meio Ambiente do Rio Grande do Sul – APEDEMA/RS, vem a Vossa Senhoria manifestar sua posição em relação à ampliação de megainvestimento da Celulose Riograndense em nosso Estado.

Na década de 70, justamente durante o surgimento do movimento ambientalista no Brasil, e em especial com a criação da AGAPAN, houve um dos mais importantes embates contra as empresas poluidoras no Estado do Rio Grande do Sul. Tratava-se do caso da empresa de celulose Borregaard, que começou suas atividades, em 1972, na cidade de Guaíba. O nome da empresa chegou a ser sinônimo de mau cheiro (odor de repolho podre) que afetava a zona sul de Porto Alegre e, não raras vezes, toda a cidade.

Em 1974, a referida empresa teve o cancelamento de seu funcionamento por mais de três meses até que resolvesse todos os aspectos relativos às emissões aéreas e aos efluentes resultantes de sua operação, considerados nocivos à saúde pública e ao meio aquático. Depois da Borregaard, veio a Riocell, logo depois a Aracruz, e agora a Celulose Riograndense, de capital chileno (CMPC). Esta última anuncia agora sua ampliação (de 400 milhões de toneladas para 1,75 milhões de toneladas), alardeando a criação de milhares de empregos, como a Aracruz fez em 2008, antes de quebrar. Mas pouco se fala que 90% da celulose produzida serão para exportação e menos de 10% para sua transformação em papel, aqui no Brasil.

Cabe lembrar que em 2008, a então empresa Aracruz, que anunciava também a ampliação da planta industrial, e que possuía investimentos do BNDES, tinha aplicado em derivativos (especulação financeira), tendo sido afetada pela crise econômica mundial, gerada nos EUA, vindo a perder em poucas semanas algo como 2 bilhões de reais.

Nestas quatro décadas, o crescimento da planta industrial não eliminou, de todo, o cheiro ruim, principalmente no município de Guaíba. Além disso, pairam sérias dúvidas, de parte de técnicos da FEPAM e também de ambientalistas de renome, como o Prof. Flávio Lewgoy, sobre os sérios riscos à saúde humana e meio ambiente, ligados a enorme carga de poluentes (dioxinas, furanos, gases de enxofre, etc.) gerados por este e outros empreendimentos industriais concentrados na região.

Cabe destacar que estamos lidando com um voo no escuro, tanto do ponto de vista ambiental como econômico. Atualmente, a FEPAM tem sua rede de monitoramento da qualidade do ar na Região Metropolitana de Porto Alegre praticamente sucateada, ou seja, sem funcionar. Por outro lado, a SEMA não consegue fiscalizar a implantação de todos os megaplantios de eucalipto que convertem parte importante do que resta de campos nativos do bioma Pampa, por falta crônica de técnicos e de condições adequadas de trabalho. Esta semana, mais uma vez, documentos das associações de funcionários da FEPAM e DEFAP chamam a atenção à sociedade gaúcha sobre a falta de solução também com respeito ao prédio parcialmente interditado da SEMA, há quase 10 meses.

Em relação a estes megaempreendimentos de celulose associados a monoculturas arbóreas – também criticados no Chile, Uruguai e Argentina – há alguns anos, o escritor uruguaio Eduardo Galeano escreveu um artigo marcante, denominado “Salva vidas de Chumbo” (2007) questionando semelhantes megainvestimento de celulose em seu país:

O que esses esplendores nos deixaram? Nos deixaram sem herança nem bonança. Jardins transformados em desertos, campos abandonados, montanhas esburacadas, águas apodrecidas, longas caravanas de infelizes condenados à morte antecipada, palácios vazios onde perambulam fantasmas…Agora, chegou a vez da soja transgênica e da celulose. E outra vez repete-se a história das glórias fugazes, que ao som de seus clarins nos anunciam longas tristezas.[…] A celulose também está na moda, em vários países. Agora, o Uruguai está querendo se transformar num centro mundial de produção de celulose para abastecer de matéria prima barata as longínquas fábricas de papel. Trata-se de monocultivos para a exportação, na mais pura tradição colonial: imensas plantações artificiais que dizem ser bosques e se convertem em celulose num processo industrial que arroja detritos químicos nos rios e torna o ar irrespirável.

 

O Estado do Rio Grande do Sul não merece ser, mais uma vez, palco de megainvestimentos de alto risco, ligados a um jogo econômico que, de antemão, concentra capital na mão de poucos, espalha monoculturas e ameaça a saúde da população e ao meio ambiente.

 A Sociedade Gaúcha clama a responsabilidade de seus governantes para que se abandonem as atividades calcadas em gigantescos empreendimentos, de alto risco, e priorizem sua atenção aqueles setores que mais estão associados à sustentabilidade econômico-ecológica como as tecnologias sociais, associadas prioritariamente em energias brandas, a agroecologia, ao turismo rural e ecológico, entre outros.

Porto Alegre, 12 de dezembro de 2012.

Assembleia Permanente de Entidades em Defesa do Meio Ambiente do RS

Excelentíssimo  Senhor      

Tarso Genro                        

Governador de Estado 

 Excelentíssimo  Senhor

Alexandre Postal

Presidente da Assembleia Legislativa do Estado                                             

Excelentíssimo  Senhor

Helio Corbellini

Secretário Estadual do Meio Ambiente

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